quinta-feira, 30 de abril de 2020

Meditação

OMMMMMMM
No prédio vizinho alguém toca o hino do homem da meia noite.
Ajusto a coluna e foco na respiração
O clarinete rasga a tarde muda
Sente o corpo em contato com o chão
Hoje esqueci de pagar o aluguel
Inspira profundamente
Uma dorzinha de cabeça...
Expira
Nunca mais eu toquei piano
Queixo na direção do esterno
O gato decide morder minhas mãos, em Gyan Mudra
Deixa o pensamento ir
O gato agora decide afiar as unhas no banco do piano.
Segura a respiração por 10 segundos
Olho pro lado e ele está acabando com o estofado, mas olha fixamente para a minha posição de lótus
Solta o ar len-ta-men-te
E a imagem do calunga do bonsucesso aparece.
Cabeça na direção do céu
Amanhã é o aniversário de Dora e depois chega maio. Uma penca de gente...
Foco na respiração e ajusta a coluna
A dorzinha de cabeça se foi
Sente o ar entrando frio pelas narinas
Tomei uma long neck na hora do almoço
Esvazia a mente
Quando eu penso em parar de pensar já estou pensando
Exercita a presença
Lembrei dos meninos quando pequenos
Esse confinamento....
Inspira
.....
Expira
.....
Inspira
.....
Olhos voltados pro nariz
....
Ins..pi..ra
....
Ex..pi..ra
....
Amanhã eu pago finalmente o aluguel
....
OMMMMMMMM

terça-feira, 28 de abril de 2020

Liberdade pra dentro




Nas entranhas. Nestes dias de confinamento, quarentena, isolamento social, distanciamento afetivo, ando entrando em contato com minha geografia interna. Os vulcões da psiqué; os vales das lembranças e memórias; os pântanos das crenças. Montanhas e mares. Lagos com monstros, cascatas imensas....
Liberdade pra dentro.
Eu nunca tinha pensado nisso. Liberdade era, até uns 40 dias atrás, poder ir e vir, pensar livremente. Falar o que pensa. Ouvir todos os argumentos com respeito e escuta ativa. Não é retiro espiritual.
Liberdade pra dentro.
Me parecia que o “pra dentro” era limitado.Isolado, talvez. Eu ignorava solenemente a infinidade de possibilidades do ser. A liberdade externa limitava o estar.
Vai entender.... Não desconectei com o mundo lá fora.
Liberdade pra dentro.
Rendeu algumas noites insones. Pra dentro é revolução nada silente. Você fecha a porta de casa e encontra outros caminhos. Mansamente, imensamente e profundamente, eu dei o passo. Sem GPS. Sem placa indicativa. Sem ponto de referência.
Liberdade pra dentro.
E aquela liberdade antiga, quando voltar a existir? Liberdade pra dentro pra aceitar as convicções e o nosso DNA sensorial.
Liberdade pra dentro.
Liberdade total.


terça-feira, 14 de abril de 2020

SE QUERES SER UNIVERSAL, CANTE SUA ALDEIA (LEON TOLSTOI)




Eu acordo muito cedo e corro para olhar o varal. A calça jeans, mais precisamente. Tinha estendido às 19h. Já percebi que às vezes ela seca, às vezes preciso passar o ferro bem quente pra ela estar prontinha. São umas 6h. Está meio úmida no cós e nas extremidades das pernas. Melhor ajudar a natureza. A noite foi úmida. Não choveu, a propósito. Mas quase sinto a gotas microscópicas suspensas no ar. Sinto a pele que encharca de um suor grudento. Sinto as nuvens densas. Um tipo de algodão doce que eu cortaria com uma faca, de tão sólidas.
Levanto da cama e os pés doloridos, o corpo relutante. Hoje é o dia 28. Quase um mês. As plantas dos pés demoram a aceitar o caminhar no piso de taco. Um ou outro solto. Um ou outro desnivelado. Um ou outro mais claro, mais escuro. Me sobra tempo hoje em dia para pensar nos tacos que cobrem o piso do apartamento. No caminho até a área de serviço. Passando pela cozinha, o piso fica vermelho, uns tijolinhos que já dão sinal de desgaste. Uns, meio desbotados, mais esbranquiçados. Quem olha pra isso? Eu vejo recados do tempo.
Chegando na área de serviço, o varal. Colorido, nossas histórias pingando e cheirando a amaciante. Quarando. Nunca, nunca um varal teve tanto significado. Nunca nossos corpos foram tão bem representados, presos por pregadores de plástico. Ligo o ferro e deixo esquentar. O contato com a calça úmida faz subir um leve vapor. Estado gasoso da água. Devolvo a calça pro lugar que estava pra pegar um ar.
Eu tenho procurado valor em cada gesto cotidiano. Na cozinha, a alquimia do afeto que cura. O sabor que une. A memória do perfume que transporta. Na arrumação da casa, o aconchego. No varal, nossas roupas limpas, a renovação, o “começar de novo”. Esta rotina limitada aos metros quadrados da casa. Eu canto a minha aldeia, num tempo em que o espaço físico-geográfico perdeu seu sentido.
Uma vez por dia abro a porta do apartamento e passeio pelo jardim. Levo Bangu pra respirar. Motor, o gato, fica emoldurado pela grade da janela. Pela tela que tudo envolve. É a nossa rotina. Bangu fareja as flores, come umas folhinhas de cidreira. Eu acho curioso. Onde já se viu cachorro gostar de comer ervas?
Geralmente saímos quando o dono da calça jeans segue pro posto de saúde. Tem dia que o plantão é na UTI.... Banana comprida com canela, queijo assado, inhame, pão com geleia. O café é de lei. Não importa o cardápio. Importa sentar à mesa e trocar umas frases, olhar no olho e abençoar o dia. O meu e o dele.
Os minutos de diálogo à distância. “Não chega muito junto, mãe”. Sem beijo, sem abraço. O meu primeiro menino está no front. Ele segue doce e sereno. Nem sei se é assim somente quando está na minha frente. Não sei se de noite, de luz apagada, ele experimenta outros sentimentos. Eu tenho rezado. E cuidado. E velado. E acreditado. Todos os dias.
Mais tarde normalmente o meu outro filho acorda. Levanta e conta dos sonhos que teve. Fala de história, de política. Enche minhas horas de palavras, de ideias, de novos conceitos. Gosto de chegar perto e deixar a mente aberta. Deixar tudo fluir. São horas contadas em xícaras de chá. A noite, no jantar, procuro agradar ao nosso paladar. Tenho errado, a propósito. Tenho acertado também. Assim, como na vida. E o dia se vai.
Estamos confinados. Fazemos algum esforço pra não pirar. Respeitamos nosso silêncio. E a rotina quebrada, que buscamos alinhavar com o fio da delicadeza.
O tempo passa, invariavelmente. Outra unidade de vida é curtida nos potes da espera.

segunda-feira, 30 de março de 2020

quaresma





Você passa suas toalhas de banho a ferro? Dobra suas toalhas pelo avesso? Prima em dobrar todas iguais e guardá-las por cores ou simplesmente as esconde dentro do armário? Você já tinha parado pra pensar nisso? Eu, nunca.
Mas esta semana eu parei pra pensar. Pensar nisso é pensar nos nossos padrões. Imaginar nossas crenças e o quanto que elas nos (de)limitam.
Eu sou só. Em meio a tanta gente, estou só. Estou me sentindo muito inteira. Mas só. Para os que eu ainda não falei, saibam. Meus dias não estão sendo fáceis. Sair de casa ou ficar em casa não é a questão.
Eu tenho todo o tempo do mundo para escrever este texto, cozinhar, lavar os banheiros, mandar mensagem pros amigos, falar com meus pais pelo aplicativo em vídeo. Eu tenho tempo largo para meditar. Fazer exercícios. E para depurar este momento contemporâneo da humanidade. Me sinto ligada à humanidade por um vírus. E, para continuar fazendo parte dela e que outras pessoas também façam, eu preciso me isolar. O vírus é um paradoxo. O vírus é uma armadilha. Cuidar de quem cuida e de si, mas com a distância regulamentar de 6 passos.
Eu tenho guardado as toalhas, lavado os lençóis periodicamente. cuidado de tudo.... às vezes parece que o globo terrestre pousa nas minhas costas. Em outras, me pareço moradora do vazio. Habitante do Caos.
Abro o guarda roupa e nele há muitas pistas do que hoje é desnecessário. No armário, sapatos para combinar com as roupas. Tudo guardado.
Lembrei da minha avó materna que nos idos de 1920 era adolescente e contava que suas roupas compradas em Paris só eram utilizadas para ir à missa aos domingos. Era o ermo do Ceará. Uma zona rural. Ela, filha do coronel.
Hoje, na metrópole caótica, vejo o quão desnecessárias são algumas necessidades urbanas. Disse outro dia meio sem pensar ao meu filho que precisaria de quatro mudas de roupa pra esta vida de confinamento. Exagerei. Pra cima e pra baixo. Não tenho mais parâmetros. Pela primeira vez, estou sendo impelida a viver o dia. O hoje. O minuto, o instante. A transitoriedade das relações, o confinamento dos desejos. A quarentena dos projetos de vida.
A quarentena na quaresma. Jejum de atividades, de bares, de praia, de praça. Abstinência do social.
E não é o fim.

domingo, 8 de março de 2020

Faz um ano


Sair de casa não é a questão. Deixar pra trás as louças, os móveis, o pau brasil plantado meticulosamente no centro do quintal, ainda filhote, e que hoje está quase chegando ao céu. Você simplesmente bate a porta atrás de si, como talvez tenha feito tantas vezes para ir ao trabalho, ao cinema, ao mercado. Gesto repetido. Fordismo da vida cotidiana, que nos carimba e condiciona.
Sair de casa, este gesto, não é a questão. Tentar, com a pancada da porta imensa, eliminar o passado, claramente, em vão. Saber que é necessário manter-se viva, manter-se ciente, manter-se sã. Não fechar os olhos, não dormir, não baixar a guarda. Ficar ali, consigo. Este é o gesto maior. Sair de uma casa de afetos, de uma construção sólida, mas que sufocava.
Sair de casa, este gesto de socorro. Este pedido de ajuda, este alerta vermelho. Nada importa. Nem as portas. Tudo de mais precioso não valia a vida. As vidas que deixei lá dentro eram os tesouros que eu mais prezei, velei, ninei e acarinhei vida afora. Vida adentro. Noves fora, quanto fica?
Eu saí. Na bagagem, uma mala sem significados. Pequena, vazia. Daquelas que já fiz quando criança, buscando a justa sensação de independência. Não, não foi independência que busquei naquele sábado triste. No último dia da semana lamacenta e esquecível, mas que jaz tatuada na minha alma quente.
Fugi pra não me perder de mim. Desde então, sigo as minhas pistas. Venho me reencontrando com alguns fragmentos, com rompantes de quem eu sou. Fugi com duas malas pequenas. Tive dez minutos para planejar o que colocar nas malas e pra onde ir.
As malas vermelhas foram minha morada por meses. Foi revelador abri-las a cada dia e me descobrir um pouco mais. Numa delas, sabe-se lá por que, só havia roupas íntimas. Mala vazia, cheia de intimidades.
Na segunda, um pouco maior, um coletivo de desencontros. Um arremedo de enxoval para a vida nova. O passaporte para eu ser o que quisesse, combinando o que não se imagina. Análise combinatória.
Guardei o sábado. Eram umas 15h. Não sei se chovia, se fazia sol. Eu parecia um ser unicelular, concentrada numa só missão. Indivisível.
Estou prestes.
Prestes a me lançar no abismo da certeza.
Imagino o salto. Certo. Preciso.
A beleza de não saber onde o vento me fará pousar.
Estou prestes a escolher a direção.
Avulsa, despregada.
O verbo estar não define. Não estou....
Estar soa estático. Soa estabilizado. Soa controlado. Soa cômodo. Soa linha de chegada.
E eu me defino, antes, de partida.
Partida, só que inteira. Para o novo. O salto, lançamento. Vernissage de mim mesma.
Minha inauguração.

Pedi o uber. Liguei pro meu irmão. Um diálogo sem lógica:

-Como é que a gente faz? Faz como?
-Venha pra cá.

O tempo era uma unidade variável, quântica... saí de casa enquanto ele lavava os pratos. Era o gesto dele pra dizer: não acredito na sua ameaça. Você não tem coragem. Ele tirou as malas de cima do guarda roupa, limpou a poeira com a toalha de rosto do banheiro da suíte. Aliás, suíte que não tinha porta, mesmo depois de dois anos de “acabada” a reforma. Eu fui um dia no atacadão e comprei uma cortina de plástico sem estilo. Pedi a porta de presente de aniversário... nada... pois bem, limpando as malas empoeiradas com a toalha de rosto, ele me disse: pode ir. Enquanto você arruma a mala, eu vou lavar a louça.
A louça que ele quase nunca lavava. Que deixava embolar na pia, e, quando lavava, negritava: lavei, viu? Taí, tudo ajeitadinho. E eu, de naif, agradecia....
Tudo pareceu em câmera lenta, mas aconteceu tão rapidamente.
Eu já tinha feito um percurso mental tantas vezes! A saída era uma das saídas pra mim. Dizem que, quando se está sem alternativa, parede vira caminho. Paredes grossas e densas, no meu caso. Sedimentadas com grandes camadas de sentimento. Tijolo por tijolo. Num desenho flácido.
Uma mala simbólica. Significando que não era ao trabalho que eu iria. Nem ao shopping. Que não era a minha sazonalidade que estava à prova. Por mais que inundasse outras vidas, por mais de destruísse os alicerces frágeis dos sonhos a dois.
Fisicamente eu sentia uma dor localizada no esterno, perto do peito, mas que não era exatamente dor. Rasgava. Esgaçava. Abria o peito. Uma dor sem nomeação e sem medida. Sem remédio. Densa. Eu poderia desenhar esta dor. Se fosse geografia, eu seria um tsunami, ou um vulcão. Uma barreira desabando nos morros de Casa Amarela.
Eu não abandonei a casa. Ou os filhos, ou o amor. Eu me salvei. Busquei um plano de fuga, sem treinamento de sobrevivência. Saí me afogando nas lágrimas, saí destruindo as barragens, saí me arranhando. Sem máscara de oxigênio. Estava crua. Em carne viva.
Aos 47 anos, nunca tinha vivido só. Numa casa, num quarto, numa cidade. Nunca tinha experimentado a sensação de acordar e não dar bom dia. A experiência de não dividir o banheiro e de ter a cama inteira pra mim. E escutar o som cedinho na altura desejada. De não ligar a televisão no café da manhã. Quase cinquenta, e jamais amanheci com a casa todinha pra mim...
Dizem, acho que dizem. Que às grandes expansões precedem longas contrações. Regressões. Retiros. Se não dizem, eu digo. Tenho dito e sentido. Para crescer muito, recomenda-se voltar à origem. Assim seja.
No meu êxodo anunciado, voltei ao lugar seguro. Como um filho que devaneia a volta ao útero. Como quem anseia voltar à terra natal. Primeiro, o abraço do irmão. Depois, e refugiei na casa paterna, até que as primeiras dores cessassem.
Foi um parto laborioso, longo, tardio. Verbo e substantivo. Busquei uma caverna segura para me abrigar enquanto as sombras da dor atordoavam o peito, projetavam pra fora fantasmas imensos.
Quando saí, olhei o céu. Vi outras cores. Uma vibração diferente contrastava com a dor do meu peito. Ventos de Agosto, que reviram tudo. A poesia já deu conta disso algumas vezes. Eu era um olhar se abrindo dentro do caos.
Mas era a minha vida real. Poesia dura e doce, rima rica e métrica imperfeita
Não, não decidi tudo de uma vez. Nem sabia como decidir, se decidir, se queria ou se estava tresvaliando. Se aguentaria a saudade. Sim! Eu quase morro de saudade neste primeiro ano. Saudade da vida que estava a pouco quilômetros de distância, e que eu sabia que deveria deixar. Como se mata um amor? Qual é esta arma potente que aniquila o sentimento sem matar a alma?
A gente marca data de casar. De separar, jamais. A gente casa num dia e se separa por anos.
As coisas não estavam óbvias. O corpo queria, urgia, deixar a casa. Mas a alma queria ficar. A cabeça estava confusa. Pra onde seguir? O corpo, elemento físico e compacto, venceu. Eu estava fora. Vinte e cinco anos vividos. E a cabeça, tonta.
Um choro, frases repetidas, como mantras. Um choro que mais parecia um vômito. Uma infecção na alma.
Eu sabia que seria preciso atravessar um deserto. Eu sabia que estaria desinteira por algum tempo.
Vivi cada dia de dor. O labirinto que se formou em torno do sentimento, dos sonhos, das projeções e do futuro. Cada pequeno momento deste período, tratei com o respeito devido. Aprendi demais. Teve colo, abraço, afeto. Teve rejeição, desamor. Teve julgamento, antes do destrato. Ouvi coisas absurdas que eu não sabia de mim. Vi olhares que me remeteram ao século passado. Saí da cena recifense. Passei a evitar os bares da Mamede Simões, a rua boêmia e onde estão todas as “cabeças pensantes” referendadas da cidade. Aquele corredor polonês de cadeiras de plástico brancas, amarelas, vermelhas. Aos mais corajosos, eu agradeço. Foram palavras duras que ouvi entre o Frontal e o Central, antes mesmo de conseguir sentar numa mesa do Boi Neon. Pérolas colhidas ao léu:

Foi o teu feminismo que lascou tudo. 

Foi você trabalhando de dois em dois anos em campanha eleitoral que fez naufragar o barco.

Qual era do defeito que ele tinha e que você só descobriu agora, mais de 20 anos depois??

Uma pessoa tão legal, você jogando pela janela..... 

Faz um favor pra mim? Conversa mais com minha mulher não, porque vai que ela aprende estas tuas ideias de separação também.

 Nesta idade você não arranja mais ninguém. Melhor voltar pra ele. 


Quem sai de casa, abandona, perde totalmente a razão. 

E você saiu porque tinha outro né? Ta na cara! 

Cuidado... estas ideias liberais, de mulher liberada, nenhum homem aguenta não. 


E ainda deixa o moço com uma mão na frente e outra atrás? 

Você acha que ainda vai encontrar alguém mais legal do que ele? Jura? Se cuida..... 

Desculpa, amiga.... mandei aquela foto sem querer... é que vocês sempre brincaram carnaval e agora vi ele brincando e achei legal mandar pra você.

 Sei, sei... ele é uma pedra... mas você ama esta pedra. Volta....

Quando eu era criança adorava dançar quadrilha junina. Fui diversas vezes a rainha do milho. Nunca, a noiva. Eu amava a grande roda... Olha a chuvaaaaa.... Choveu.... passou.... balancê!!!!!! Tudo era genial. Mas eu torcia que o gritador esquecesse o passeio das damas. Não gostei nunca de passar naquele corredor, todos me olhando. E eram três segundos que muitas vezes me faziam pensar três vezes antes de aceitar o convite pra brincadeira. Eu tinha 11 anos, no máximo...
A Mamede Simões passou a ter pra mim este mesmo sentido. Passar pela rua repleta de bares e de pessoas que eu conheço de tempos desencontrados, me parecia o passeio da quadrilha. Eu, que sempre me senti partícipe da minha cidade, da minha bolha, da minha galera, agora estava ali, cabeça baixa, evitando comer o falafel do Central. Escolhendo horários que não fossem “os de pico” para sentar e tomar uma cerveja. Eu mesma me exilei. Eu mesma dei aos outros o tamanho que eles assumiram.
E, antes da primeira volta em torno do sol, chegou o documento de distrato. Eu saí de casa, mas o gesto definitivo não foi meu. Fiquei ali pensando nisso, com o telefone na mão, desligado. Me deixei chorar. Cansei. E nem aquele golpe me fez mudar. ”Volte pra casa, e tudo fica como antes”. A resposta que de mim saía era corporal. Não. Sim, tem dias em que vida dói. Feito pé torcido. Feito dente furado ou que nem garganta inflamada. Tem dores maiores. Mas nestes dias em que a vida dói que nem otite, é melhor respeitar. São as dores menores, as mais insistentes.
Distrato deste contrato, que nós dois firmamos e que eu não suportava mais. Destrato que chamam de divórcio. Um contrato não anula o sentimento, mas coloca tudo no seu lugar. Fui eu quem primeiro rompeu com algumas cláusulas. Eu saí do meu lugar estabelecido, subverti as marcas e modifiquei o cenário. Minha cenografia pedia mais leveza. Eu queria me mexer. E tentei modificar nossa montagem com a peça em cena. Tentei por anos trocar o pneu com o carro em movimento. Em vão.
Assinei um papel de desenlace. Como é que se finda um laço depois de assinar um destrato? Laço que era amor, agora é reconhecido em cartório como passado. Tem dias em que a vida dói muito. Sem remédio. Fala com alguém, faz um paliativo. Mas o ciclo da dor é que nem uma virose.
Neste primeiro ano não me ocupei em matar o amor. Me parecia suicídio. Tentei cuidar dele. Eu não acredito que um sentimento tamanho morra. O que mudou foi a minha relação com ele. Antes acreditava que tudo se pode fazer em nome do amor. Mas não. Nem tudo. Para amar é preciso estar viva. No sentido filosófico. Porque no sentido fisiológico, nem se cogita.
Escrevi cartas mentais. Cartas para quem nunca vai me ler. Que bobagem, que estupidez, escrever uma carta para quem nunca a lerá.... Escrever uma carta para dizer que sim, o amor parece que se foi, mas insiste em ficar. Parece que se foi, mas se esconde na chaleira do café, na manhã dos domingos. Ao amor tóxico, ao amor tristeza, ao amor covardia, ao amor vazio. Escrever esta carta para ninguém ler, mas para que saísse de mim mais um pedaço deste sentimento que afoga. Oxigênio em ambiente rarefeito. E, no entanto, a carta sopra nos meus ouvidos talvez como sendo mais um suspiro. Um pedido que sim, vá.
Um pedido para que deixe alguma coisa de mim ficar. Um apelo ao meu ser, que seja.
Que assim seja, que se respeite, que se ame, que se aninhe. Uma carta para quem nunca me leu. Uma carta para quem jamais me lerá. Um documento vazio de intenção, pleno em mim. Que bobagem, que estupidez, repito! Escrever uma carta de amor para quem jamais decifrou os signos, símbolos e métricas da alma que escreve.
Uma carta para analfabetos funcionais, que não interpretam as linhas vitais. Chegue este amontoado de palavras aos seus olhos, não traduzirás. E ainda assim, teimo em seguir contando a minha história. Porque basta que eu mesma a compreenda e a traduza. Que eu veja nas suas entrelinhas, meu sentido. Que eu seja minha própria tradutora e intérprete.
Nem sempre as respostas chegam. Elas estão em nós. Já habitavam aqui. No mesmo endereço do seu afeto, na mesma gaveta das memórias, no lugar exato da sua dor.
Recitei poemas. Vi meus escritos sendo rasgados à minha frente. Não falávamos mais a mesma língua. Não, não foi o meu trabalho. Não foi a militância feminista ou o ser dele de artista. Não foi maldade. Nem foi desamor.
Foi desacerto de marcha. Aliás, já fazia um tempo que a gente, antes casal pé de valsa, não se entendia no salão. Eu, pra lá. Ele, pra cá. Eu disse, ainda no nosso namoro, que só casaria com um homem que dançasse comigo. Deslizasse no salão e descolasse da realidade. Que me desse a licença poética. A gente dançou assim por anos. De olhos fechados, dançava melhor. Fechava os olhos e imaginava um mundo colorido guiado somente pelos passos ritmados. De olhos fechados, construía uma história, uma fábula. Pensava que deveria fazer assim por toda a vida. Jogar para a direita, para a esquerda, paradinha no centro, junto com a marcação da zambumba. Na vida a dois, tocava a zabumba, mas gostava mesmo era de dançar. Ser levada pelos braços dele como um passeio bom. De olhos fechados. Uma espécie de cegueira, talvez. Cegueira providencial. De forró pra xote, de xote pra baião. Ele inventava os passos. Eu não abria os olhos. A brincadeira podia acabar. Até que ele começou a ditar os passos, no lugar de conduzir. Parecia locutor de futebol. Ou o gritador da quadrilha. Perdia a poesia. Burocratizou a magia. Tinha um esforço desnecessário no casal que dançava há anos. Até que um dia, sem mais nem menos, chamei ele pra um xote e ele pela primeira vez negou. Eu gostava de dançar xote. O arrastado do pé no chão, a regularidade, a cadência. Xote é música de namorar. Quando tocava um xote, pra mim já era eu e ele. Nesta noite eu insisti. E me arrependi. Meu parceiro chegou no salão contando os minutos, ou as músicas. Dançou duas e me olhou: ta bom? Ta. Murchei.... Sentou na mesa e abriu uma cerveja.
São tempos difíceis. 
São tempos difíceis.
Eu ainda não sei falar da revolução dentro de mim, nem do golpe lá fora. Ou seria o golpe dentro de mim e a revolução lá fora....Eu ainda não sei. Falta muito.
Ainda não sei escrever sobre este rebuliço, este gesto largo e firme que me trouxe a esta paisagem estonteante. Ainda não sei me situar com as novas gavetas.
Onde guardo os talheres, onde estão os colares, o saca rolha, o pano de chão?
Onde acomodo meus gestos viciados, onde dobro minhas memórias já passadas?
Falta muito. Eu ainda olho para as cadeiras da sala como uma turista. Esqueço onde fica o lixeiro e não tenho nenhuma intimidade com a máquina de lavar.
Não aprendi o tempo do elevador. A viagem do 14º até o térreo me parece intercontinental. Tenho atravessado mares, a propósito. Todos os dias.
Onde devo ter guardado aquela extensão?
Onde se esconde a chave do carro?
Qual é o abrigo das minhas dores?
As paredes ainda em branco reverberam um eco que intriga.
Casa sem memória, guardando todas as histórias que eu trouxe de endereços passados. 
Juntando tudo, não dá nem a metade de mim.
O restante, vai que está entre os guardanapos, ou quem sabe, no armário da área de serviço. Escondido em alguma sacola de plástico...
Falta muito.

Ressignificar o almoço do domingo, a tapioca do café da manhã. Ressignificar a cama de casal (?)... toda pra mim agora e tão, tão, tão maior. Ressignificar, mas ao mesmo tempo, brigar para manter a memória do que vivi. Honrar.  O nascer de um amor não deve ser esquecido. É mais ou menos como se eu negasse minha própria história. Como se, negando a vida juntos, eu estivesse apagando anos que vivi. VIVI. Viveria tudo novamente. Porque foi do meu mais profundo ser que nasceu o que sinto. Sinto, no presente do indicativo, pra dizer que sim, saí de casa com o peito em chamas, com a alma arranhada, com a estima no subsolo... mas reconhecendo a grande história de amor. Tanto, que não me livro dela. Não me desaprego. Ela está na minha pele ainda.
Não posso escolher a sua métrica nem a minha rima. Eu não posso mais voltar. Não é orgulho, este sentimento unilateral. Nem mesmo a sensação de mágoa. É porque sei que já não somos mais os mesmos. Eu ainda vejo o mundo com as lentes criadas por nós dois. Eu ainda sinto a vida. Tenho ímpeto de ligar quando recebo a notícia da morte de um amigo em comum. Eu às vezes ainda coloco quatro xícaras na mesa para o jantar. Eu sinto muito.  
Foram caminhos cruzados por décadas. Caminhos que se encontraram, entrelaçaram, se misturaram.... houve um tempo em que eram as mesmas rotas, os mesmos horários óbvios. Um chegava, já vinha o outro. Um vinha, tinha o outro na sombra. Um vivia, respirava o outro.
Até hoje sinto um conforto que vem deste amor. Um conforto de ter vivido este amor, de ter sido dele personagem e de ter me nutrido tanto tempo deste sentimento bom. Até hoje, pensar neste tempo me conforta. Conforta minha dor.
Mas é preciso se livrar, deixar fluir e fruir. Deixar ir, desapegar.

Despedida na Rua da Saudade
A paralela é a união
Abraço na encruzilhada da vida
Despedida que não cabe no abraço
Que não se encerra no perdão.

Segue a poesia da vida. Vai a prosa, nesta crônica sem fim. As linhas nunca acabam. São o futuro. Estão em branco.


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Curando ao sol

É verão. E é verão pra todo mundo. Verão de o suor escorrer, verão de manga no pé e caju perfumando os litorais. Verão de sol alto às 17h. Um sol pra cada pessoa, dizem por aí. Sentir a intensidade da estação, se abandonar numa piscina de água salgada na beira do mar. Respeitar o fluir das marés involuntárias. Abraçar o ciclo, brincar com o vento. O sal que limpa as quizilas. O sol que aquece e tinge a pele. São dias inteiros de ritmo frouxo, cafés da manhã politicamente incorretos, caipirinhas diárias, brindes abençoados. Almoços intermináveis de brisa. São conversas espichadas pelo prazer do riso. São longas conjecturas sobre o horário melhor para aquele mergulho… sobre a hora exata do por do sol. Na imensidão do azul alagoano, o relógio vira acessório dispensável. Pra dentro, o verão vai invadindo. Expurgando. Quarando. Secando os tempos molhados. Pra dentro, uma alegria tímida se insinua. Um florescer. Colher os frutos plantados. Desejo o próximo barco. A onda seguinte que vem firme e quebra na beira em instantes. A maré vindoura. O picolé de coco, o peixe fresquinho, o caldinho de marisco. Pimenta e limão. O diário de uma viagem subjetiva. Dias de paz e sol. De luz e brilho. Sonhos dos meus dias de verão.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Algoritmo

Não cheguei até aqui para ser muleta.
Não andei tão longe, atravessando tantos desertos pra ser um algoritmo. 
Eu quero mesmo estar viva. Quero mesmo sentir o corpo pulsar e a existência fluir.
Não cheguei até aqui para viver de fantasia.
Os sonhos que constroem são meus guias. 
Mas os devaneios, desejo bons ventos que os levem.
Não cheguei até aqui, madura e adulta, para ser uma foto num aplicativo.
Ou algumas mensagens diárias que pseudo alimentam a alma.
Não cheguei até aqui sem dar as mãos. 
É preciso coragem e verdade 
É preciso bravura.
Eu cheguei até aqui. 

Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...