segunda-feira, 21 de março de 2022

Horizonte

 Pausar. 

Simples e necessário!

Tempo restaurador.

Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres.

Fechar os olhos e sonhar.

Se permitir ser e estar.

Pausar.

Com o mundo girando.

Ninar o cansaço até o sono, enfim.

Olhar de frente pro espelho

Mais profundo

O imenso dentro.

Pausar.

E, finalmente, nada a fazer.

Só o sol que tinge a pele

O vento que dança com os cabelos

O mar que canta poesia nos ouvidos.

Estou voltando, a caminho. Chego já.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Autorretrato


Vou começar pelas ancas. Aquelas fartas, curvas, fora do padrão. As que abrigaram os rebentos. As mesmas, redutos da paixão. Caverna ensolarada que guarda desejos. Sou uma mulher de um metro e meio e quase um metro de ancas. 

Afino pra cima. O busto não representa tanto. Tenho a alegria de chegar aos 50 e gostar de mim. Lembrar que estes peitos alimentaram vidas, último fio de elo físico com as crias. Estão aqui, nem tão firmes, mas fortes. Sou uma mulher completa na minha contradição. Poesia abstrata,na pele concreta.

No rosto, lábios grossos e grandes, nariz de porrote e olhos pequenos. Sou uma mulher comum, fruto da mistura. Meus olhos verdes no cabelo escuro. Uns cachos nas pontas, ondulado a silhueta, batendo na nuca. Minhas mãos pequenas nas coxas grossas. Os tornozelos roliços, os braços finos, o osso do punho proeminente.

Calço 35. Sutiã P, calcinha M. Uma mulher inteira desigual. Dizem que deveria ter crescido mais. Desconfio que se cresci, foi pra dentro. Nas entranhas é que estão as profundezas. É aí que fico maior, neste vasto campo minado e florido. Neste latifúndio sem reforma agrária que é o sentir. Um feudo a ser explorado, pasto infinito de ideias e sensações.

Sou uma mulher pequena e mediana. Repito rotinas buscando aterrar. Sou ar. Gêmeos, ascendente Aquário, lua em Libra. Disseram outro dia que não deveria estar viva. Deve ser porque gosto de voar. E, sendo assim, de pousar. 

Gosto de mesa posta, de comida cozinhando, do cheiro do feijão perfumando a casa, das risadas que saem de momentos displicentes. Não faltam gás, coragem e alma. Esta última segue caminhando com cicatrizes, marcas, memórias e algumas dores. Carrego a mulher que sou. 

Me sobra crença. Meu estoque de fé veio no atacado. Não sou do varejo. Sou insistente, cultivo a teimosia, semeio minha opinião. Mudo de lugar, ponto de vista, que nem o sol ao longo do ano. E choro como a chuva de maio, mês que me recebeu neste mundo. Aprendi a chover de alegria e de tristeza, de emoção e de pesar. Aprendi a desaguar e inundar, conforme a maré.

Nasci numa cidade de pedra e mar. De lama e mangue. De arte e desigualdade. Quebro as ondas nos arrecifes como o oceano em Boa viagem. Vou esculpindo o espírito. Vou queimando a pele, vou desidratando. 

Quando me deparo com o espelho, vejo muito mais do que escrevo agora. Vejo passado e presente pulsando num diálogo que adivinha o futuro. E nada vejo, ao mesmo tempo. Os olhos mais cansados, perdem os detalhes, escondem as pistas do tempo. Sinto que me perco, antes de achar, nenhuma certeza.

Meu autorretrato se faz a cada dia. Não ouso assinar embaixo, não reconheço firma. Não sou conclusiva. As águas que no meu corpo correm já passaram por todas as veias, tantas vezes e não são as mesmas. Vida, esta duna que é levada pelo vento.

domingo, 26 de dezembro de 2021

pandemia

 

Hoje é véspera de natal e eu desejo imensamente a vida.

Que a gente continue desejando

Um sorvete, um beijo, uma viagem

Uma fatia de bolo, um abraço, um mergulho no mar.

É preciso sonhar.

Meu presente de natal é o meu sonho em estado de alerta,

Incomodando para que eu dele não deixe de precisar.

Hoje é véspera de natal e a vida plena é meu sonho de consumo.

domingo, 19 de dezembro de 2021

Quase tarde

 

Acordei sentindo o corpo todo meio dormente, meio vibrando. 

Um sono absolutamente profundo, Um despertar lento, relutante.

Aliás, a palavra é relutante.

Lutei muitas vezes. Insisti em perder.

Relutei por anos em aceitar. Acolher. Refusei oportunidades, me escondi atrás de tantos fantasmas. Meus esconderijos quase perfeitos.

Eu, minha principal algoz, dando voz a todos os comentários. Vestia a fantasia alheia e dela me apossava.

Capaz de criar tantas realidades, desci dos meus palcos, apaguei as luzes e me fechei no camarim. As cortinas seguiram abertas, sinalização para saída de emergência, fuga tragicamente planejada.

Mas, por maior que seja o bunker, um dia há que se abrir a porta e buscar água, comida, ajuda. Por mais perfeito que seja o disfarce, em algum momento a maquiagem borra, o chapéu voa, a máscara cai.

Foram muitos os passos. Primeiro, em círculos infundados, encontrando desculpas vazias baseadas num sentimento em nada parecido, mas denominado de amor. Depois, muito depois, novos caminhos titubeantes, cambaleantes, trôpegos.

Reabilitação para a vida.

Reaprendi a respirar, a nadar nas minhas águas turvas e bravas, a amar o que é meu. Uma passagem nem sempre linear.

Eis que hoje eu acordo sentindo diferente. Acolhendo meus prazeres, reivindicando minha memória, reconstruindo minha história. Eu não sou o desenho do passado. Eu não sou o decalque das décadas nostálgicas.

Bordo com palavras meus novos sonhos. Faço e refaço pontos que eu mesma criei. Misturo as cores que me aprazem. Acalmo minha pressa de viver, alimento a fome de ser.

Não me incomoda reciclar, reutilizar ou repaginar sentimentos. Não tenho a avidez capitalista do novo, do exclusivo, do todo meu. Vou trazendo na bagagem o que ainda me apraz. Carregando o peso que posso levar sozinha.

Aliás, esta foi a lição mais difícil de aprender. Fazer a mala para aquela viagem e só levar o necessário. Passei a fazer o exercício do minimalista. Experimentar o pequeno como se fosse o fundamental. 

O escasso, sem restrição.

Divagando e brincando com as palavras, me dou conta que ainda estou deitada, respeitando o ritmo do meu despertar.

Quase tarde, mas ainda manhã. 

Há tempo para celebrar o domingo.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Batuta do Seu José

A batuta do Seu José


Era julho de 2019. Meu penúltimo dia de umas férias rápidas em Paris, fui passar dez dias. Pouca bagagem, nenhuma intenção de fazer compras.

A ideia era flanar. Fiquei no apartamento de um amigo na Porte D’Orleans. 

Cheguei sem programação fixa, mas tinha uma única missão. Acordei na manhã ensolarada e rumei para a tarefa. Bati a Rue de Rome em Paris de cima abaixo e não achei a loja. Resumo da ópera: ninguém conhecia! Até que depois de arrastar meu pobre francês em boulangeries, entre os passantes... decidi me aventurar numa loja similar: Rome instruments. Entrei e encontrei exatamente o artigo em questão. Trouxe com todo cuidado pra Recife, pois era frágil. Passei umas duas horas batendo perna e achando que o meu francês estava cada vez menos entendível... mas na verdade meu irmão tinha me recomendado muitíssimo e com veemência uma loja que jamais existiu na história da cidade luz!!!!

Valeu a pena quando entreguei o pacote bem embaladinho. Um tesouro pra ele. 

Meu irmão José Renato é Maestro. A encomenda, duas batutas de fibra de carbono, levíssimas. Um desses exemplos em que o “vale quanto pesa” não se aplica.

Aprendi com ele que a dedicação tem sua recompensa. Que precisamos acreditar e perseguir os objetivos. Com Nato, seis anos mais velho que eu, li poesia até tarde da noite. Acordei cedo para ir às aulas de piano num fusquinha sem limpador de para-brisas, mas que nos livrava do ônibus lotado.

Zé Renato, hoje maestro da Orquestra Sinfônica do Recife e da Orquestra Criança Cidadã, é meu tudo: O irmão-abraço, o irmão-acolhimento, o irmão-afeto. 

Fui mãe de leite da sua primeira filha, sou madrinha da caçula. Nossas vidas se entrelaçam em um caminho de partilha.

Estas fotos são do primeiro concerto dele com a orquestra de meninos e meninas do Coque. 

Sentei no gargarejo e me emocionei com o repertório, com o solo de viola e com a última peça, de Beethoven. Pensei na história de cada jovem músico que estava ali, refiz na mente nossa trajetória.

Mas nada me tocou tanto, nada me levou para tão distante... Eu e a minha mania de ver as sutilezas... 

No meio da última peça, a batuta de fibra de carbono caiu da mão do Maestro.

Ouvi o toque da queda, tive um pré-impulso de ir resgatar, mas fiquei ali quietinha. Ele continuou regendo. Eu parei o mundo e fiquei acompanhando as mãos expressivas do meu irmão. As mãos que pediam calma, paixão, força e unidade. Uma pausa nos Cellos e alguém coloca a batuta dele na estante. Com elegância e intimidade, ele dá um tempo de pega novamente seu instrumento.

Pensei comigo: eu andaria a Rue de Rome mais umas cem vezes para viver este momento. Nem sei se a batuta que ele estava usando era a mesma que eu trouxe na sacolinha de mão com zelo extremo, mas, como dizem os franceses, Tampi...

Acabou o concerto, aplaudi toda a história dele ali. 

Aplaudi as noites de estudo, os dias de suor. 

Aplaudi os 30 anos de aulas no conservatório.

Aplaudi a verdade que existe nos seus gestos.

Aplaudi o meu irmão, que carrega o coração na ponta da sua batuta.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Clarice, vem conversar!

O mormaço emerge do chão.

A chuva fina que cai insegura se desfaz antes de tocar no solo. 

O suor que traça caminhos incertos pelas minhas costas chega a fazer cócegas.

Recife parece um forno.

As roupas desfilam grudadas nos corpos, o pensamento anda em câmera lenta. 

No supermercado aqui perto de casa o tomate está custando R$ 9,29 reais o quilo. Onde vai parar este mundo? Um simplório molho de tomate com cebola, louro e tomilho virou iguaria. Uma pitada de sal e pimenta pra levantar o sabor... O molho vinagrete do arrumadinho do final de semana, ou pra acompanhar aquele churrasco... aliás, a carne também está pela hora da morte. Melhor mudar o cardápio do domingo.

Volto com as compras e quero que o mundo congele, literalmente. 

A umidade do ar não é assim tão relativa. Me parece absoluta. 

Recife parece um forno.

E eu cozinho as ideias, tempero os sentimentos enquanto sinto o peso da tarde.

Sonho com o pôr do sol, desejo a brisa que vem do mar. 

Recife, esta cidade litorânea que respira agreste.

O mapa não transpira, não se compadece de mim.

Minha cabeça dói. Deve ser o calor. 

Chego com as compras, vou guardando, abro logo o pacote de chocolate amargo e destaco um pedacinho. Mordisco as pontas e sinto o agridoce da nota de sal. 

Gosto dos opostos. Gosto de sentir na boca os sabores tomando lugar, desenhando aromas, afagando memórias.

Vou ordenando meus dias na cabeça enquanto guardo o milho de pipoca, lavo as frutas e separo os legumes.

O que eu diria a ela no dia do seu aniversário? Como contaria sobre este Recife tão distinto da sua infância? 

Um Recife que há dois anos não tem carnaval. 

Um Recife, cidade desigual.

Um Recife que amo como talvez, você também.

Queria te dar de presente a cidade que mora no meu peito.

Queria dividir um sorvete de tapioca, andar na beira do rio e dar boa tarde ao vendedor de amendoim. Torrado ou cozinhado?

Sexta-feira, 10 de dezembro. Dia que se faz mais um.

Clarice hoje faz 101 anos.

A chuva fina canta melodia nas folhas da papoula. O calor desenha arabescos no vidro da janelas. 

Senta aqui, Clarice... vamos conversar.


Na foto: Clarice menina.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Um teatro é um abraço



Não leve em consideração esta foto amadora. Foi o melhor que consegui. A luz estourada, a falta de foco e enquadramento, a evidência na cortina encarnada com franjas douradas, os arabescos que aparecem na penumbra e quase nada dizem do momento que vivi. O piano parece até mais magro na imagem, uma perspectiva pouco usual. O pianista, que tinha o holofote sobre si, no meu registro é um homem sem rosto. O artista com pele de cera.
- E porque, então insistir em publicar e descrever uma foto tão insignificante?
- Pela força do momento.
O palco é do Teatro de Santa Isabel. Desde criança frequento o lugar. Já vi espetáculo da plateia, dos camarotes, das frisas, da torrinha e até das coxias. Já estive na plateia e no palco. Ri e chorei. Aplaudi, pedi bis. De monólogo a orquestra. Peça infantil e dança. Teatro de bonecos e coral. Eu poderia lembrar muito mais.
Um teatro é
um abraço
. E no desenho do Santa Isabel, o abraço é real. As frisas contornam a plateia. São braços sinuosos e roliços que envolvem as cadeiras.
O que posso ver além da foto é a emoção de ter voltado ao teatro depois de um ano e oito meses de jejum. Acho que nunca fiquei tanto tempo sem pisar ali. Fui chegando e logo na porta recebi a acolhida de dona Ivete, que vende cerveja, café, confeito, chocolate e pipoca.
-Quanto tempo! Foi ela me falando, em tom de festa.
O que posso ver além da foto é o cheiro da sala de espetáculo, o meu pé pisando no carpete macio, as escadas que me conduzem ao meu lugar. O toque triplo que avisa o início do espetáculo. As luzes se apagando aos poucos. A expectativa de comungar de mais uma aventura.
Hoje foi o primeiro concerto desde o início da pandemia. O teatro estava “lotado”, com apenas 30% da capacidade ocupada. E eu lá 😊
E o espetáculo? O piano esculpido e lapidado de Luís Felipe Oliveira. A música que atravessa a gente sem parcimônia. A capacidade de revirar as tripas da alma. O pernambucano de gravatá flui. Interpreta Beethoven, Lizt, Dutilleux e Chopin num diálogo forte, doce, emocionado. Na minha cadeira, os óculos ficaram embaçados algumas vezes. A alegria de compartilhar tudo aquilo. A força da arte.
O tempo passou espichado, querendo que não acabasse nunca. Na última peça um quinteto de cordas acompanhou o pianista. E eu ali querendo absorver cada segundo. Laila no palco com sua viola, uma sianinha que enfeita as vestes da minha ânima.
Quando a luz acendeu, eu já estava em pé. Um grito de BRAVO me saiu inadvertidamente, meio tímido ao mesmo tempo. Como se o distanciamento social ou a abstinência tivessem de alguma forma me atingido.
O espetáculo acabou e eu juro a vocês que trouxe partes deles comigo. Aliás, acho que ele começou muito antes, quando Dante me convidou para ir ao teatro. Quando escolhi o vestido e pedi o uber. Quando desci com Luís e Lis e nos juntamos a Dante no café do Teatro. O primeiro marejar foi fruto de me ver com meus filhos na frisa. Tão pequeninos eu os trazia pelas mãos nos domingos de tarde. Senti o passado com seu negativo não revelado projetando as imagens...
Saí do Teatro meio muda, meio exausta. Meio saudosa, meio de ressaca de tanto sentir. Saí querendo que o teatro me abraçasse mais um pouco. E querendo também descansar. Saí como uma criança que ama e se exaure na primeira festa de aniversário.
Aqui muito pra nós, acho que o Santa Isabel estava também saudoso de mim. Minha crônica poética dá conta disso. Meus versos de algum jeito também são filhos daquelas paredes seculares. Sou bisneta ou afilhada da arquitetura. Sou formada nesta escola.
Eu só pensava em chegar em casa, escrever este texto antes que ele se diluísse na minha rotina de amanhã.

domingo, 3 de outubro de 2021

Passiflora

 

Acordei de um sonho ruim. Prefiro nem contar. É de arrepiar, de fazer chorar.

Vomitei o sonho no meu dia. 

Já começou atravessado. O céu estava azul, aquele infinito riscado de branco. Não combinava com meu espírito.

Mas também... nunca fui chegada a combinações. Sapato da mesma cor de bolsa, conjunto de saia e blusa... nunca foi a minha mesmo. Prefiro os desencontrados.

Um degradê de sentimentos

Camadas recheadas com memórias reviradas

Outras exumadas

De onde vem tanta lembrança?

 

Fui comprar o pão, fiz o café, sentei à mesa.

 

Insisto em manter a rotina. É uma maneira de apaziguar o devaneio que bate à porta da mente e tem vocação para incensar a alma.

Acordei deste pesadelo simbolicamente hoje.

Cada pessoa tem o seu, pensei no meu íntimo.

Ele me visita cada vez com menos frequência. Sinal que está se esvaindo, eu rogo.

São 8h da manhã, faz três horas que acordei e ainda não emiti uma palavra sequer. Mas a mente prolixa ensaia o monólogo. A plateia sou eu mesma. O Palco imenso para uma única cadeira ocupada.

Foi somente um sonho ruim, tento me convencer.

Rasgo o pão com a mão enquanto a serra aguarda ao lado. O café vai puro mesmo.

De doce, basta a vida, eu prego.

Eu não devia comer tanto pão, nem tanto glúten, nem tanto trigo.

Mastigo o pão e ele me remete ao sonho. Brinco comigo mesma.

O sonho não acabou. O de hoje veio recheado com creme de dor.

Mastigo o sonho de cada dia, engulo seu enredo e saio para a rua.

Mais tarde eu tomo uma passiflora.

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

alinhavando

 

Tento aproveitar um momento de paz, ou de solidão, pra escrever.

Devo ter meia hora, no máximo.

Estou aqui no trabalho. Calhou de estar sozinha na sala. 

Lá longe ouço o barulho da reforma do elevador. Martelos, serras elétricas.

E, ainda assim, eu comecei este texto dizendo que estou em paz.

Nos últimos dias a lua cheia pendurada no céu do Recife deve ter mexido comigo.

Alternei entre marés muito altas e outras baixinhas.

Ressaca.

Fortes ondas de memória, ventos transformadores. Longas caminhadas.

Dizem que a lua conversa com as mulheres, assim como dita ordens aos ventos.

Esta lua me trouxe lucidez.

Dessas avassaladoras. Dessas estruturantes. Dessas desconcertantes.

Uma reforma interna, menos barulhenta do que a que eu ouço agora.

É preciso caber em si.

Um trabalho...

Sim! Um trabalho!

Eu sou este jogo que se monta e desmonta. 

Que remonta e desconstrói.

Tenho produzido novas peças. 

Como quem faz um crochê, desenhando com linha e agulha figuras aleatórias. 

Vou desenhando e desfazendo. 

Alinhavando 

Contando histórias, calejando os dedos, cada ponto, seu lugar.

Lembro das minhas avós, mestras no crochê.

Elas faziam lindas roupas pra mim, pras bonecas, faziam colchas e redes. 

Tudo a partir do fio e de uma agulha com ponta rombuda.

Quais pensamentos elas cosiam enquanto desenhavam com a linha?

A precisão de fazer arte, de vestir e adornar, a partir de quase nada.

É preciso caber em si.

O exercício é diário.

As luas minguam, crescem, novas.

Eu caminho pra dentro.

A reforma lá fora silenciou. 

Deve ser a hora do almoço. 

domingo, 5 de setembro de 2021

mais uma dose

 


Saí de casa com uns pinguinhos me beijando

Céu azul pingando pequenas bênçãos

Mania de ver o que não existe

 

- Justo hoje, que tirei a sombrinha da bolsa

 

É setembro

 

Tomei a segunda dose

Mais serena

Mais emocionada

Mais acomodada nesta noite sem fim que é a pandemia

 

Mais uma lapada

Mais uma dose

 

A agulha entrou doendo, formigando.

O coração acelerou

Os olhos marejaram

Não durou um minuto

 

O Recife continua o mesmo

Gente acampando nas ruas

Fome crescendo nos canteiros

Rio brilhando sob as pontes

 

Um ar de domingo impregnando

Aquela sensação de lavar a alma

Vestir a roupa do dia

Celebrar sem fim

Os ciclos renovados

 

Nada diferente

E uma coisa mudou

É dose!!!

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Dendê na quarta-feira

Tirei logo cedinho o peixe do congelador.

Não sabia ainda como preparar, mas deixei as ideias marinando até as postas chegarem na temperatura ambiente.

Espremi um limão na pescada amarela e deixei descansar.

 

A casa quieta.

Uma quarta-feira morna.

Desmarquei alguns compromissos.

Quem estava de molho era eu.

Pensei em ir ao salão, fazer as unhas pra entrevista marcada às 15h. Mas desisti. Vou assim mesmo do jeitinho que estou.

 

A casa cada vez maior.

No quarto, meu filho ainda dormia.

Meu filho luz.

Luís.

Ele é o caçula que eu aprendo a enxergar adulto.

Acorda, faço um café e a gente fica ali, enrolando o tempo entre um gole e outro, conversando.

Abro a geladeira e vou tirando cebola, tomate, pimentão.

Coloco na bancada óleo de dendê (ousada para quem ainda vai enfrentar a quinta e a sexta...)

Azeite

A tábua de madeira

A faca preferida

E vou montando o peixe.

Abro a geladeira novamente buscando o coentro, que tinha esquecido.

Vou acomodando tudo na panela que esquenta em fogo brando.

As postas de peixe ficam entre os legumes.

Gosto do cheiro que vai subindo desta mistura.

Levanta a fervura e eu tampo.

Luís pega o prato, se serve de arroz e peixe, rega com o molho alaranjado.

 E de repente, me vi dentro de um abraço, assim.

Um abraço que me destemperou. 

E me fez marinar os olhos.

Tanta coisa naquele abraço! Ali no meio da cozinha me senti que nem uma chaleira em ebulição. Entendi que palavras não seriam ingredientes do almoço.


A casa ficou pequena pra mim.

O amor estava no peixe, no arroz, no dendê em plena quarta-feira.

Estava no silêncio, na conversa mais cedo.

É tudo um abraço só.

E ainda é quarta-feira.

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Sobre dor e guacamole

 

Sabe aquela sensação de estar deixando o caixa do supermercado, com várias sacolas nas mãos e lembrar, num rompante, que esqueceu de comprar café?

Você interrompe a caminhada por um segundo e só não leva a mão à testa num gesto mecânico porque está segurando as compras.

- Agora já era.

Hoje acordei na hora, com a sensação de estar atrasada. De ter esquecido alguma coisa. O corpo dolorido das dores do mundo. Fiquei deitada um par de minutos, pensando o que fazer da vida.

No dia anterior, fui ao velório de mais uma mulher assassinada pelo ex-amor... O caixão no meio da capela do cemitério de Santo Amaro gritava. Por justiça. Mais uma. Menos uma.

Anteontem, no prédio vizinho, aconteceu quase a mesma coisa. Um golpe do destino fez o agressor errar os 3 tiros. Ele se matou depois.

Eu chego em casa do cemitério meio encerada. Sem sentir nada. Impermeável. Deito na cama e fico ali atônita. Decido ir caminhar na Jaqueira. Fui no automático. Tinha um saxofonista na porta do parque tocando umas músicas... eu caminhei buscando as melodias, que iam e vinham dependendo da minha localização. Eu não tinha nenhum trocado pra deixar dentro do case dele.

Na volta, vejo na geladeira um abacate maduro, já passando do ponto. Corto as cebolas em pequenos quadradinhos, deixo de molho no limão. Amasso com um garfo a polpa do abacate. Corto cheiro verde bem miúdo. Constato que está faltando tomate... rego a massa de abacate com azeite, sal e bastante pimenta do reino. Junto os demais ingredientes. Olho em volta e vejo a pimenta rosa ali dando sopa... misturo no guacamole para dar um toque de cor na pasta verde degradé.

Cortei umas fatias de pão, arrumei tudo na mesa. E a fome passou antes mesmo que eu sentasse.

Estava exausta.

Uma dor no corpo chamava a alma. Uma covardia por dentro clamava por respeito. A minha garganta dolorida de tanto prender o grito.

Me abandonei na cama. Não eram nem sete da noite. Por via das dúvidas, coloquei o termômetro e a temperatura era 36,2°.

Tudo bem, eu pensei.

Deixei a alma sangrar. Fiquei sentindo a dor da morte destas mulheres que eu nem conheci.

Acordei hoje ressacada.

Faltava ovo, queijo, leite, fruta. Saí relutante da cama, fui ao supermercado. O leite mais de R$6,00. Melhor comprar suco de uva.

Eu ainda arrastava o lençol.

Cheguei no caixa, conversei um pouco com a operadora, digitei a senha e nem olhei o valor. Guardei a nota. Quando arrumei todas as sacolas nas mãos, tendo o cuidado de deixar mais livre a sacola da doação que iria fazer na porta do supermercado, lembrei do café.

- Agora já foi.

Entreguei dois pacotes de biscoito waffle de chocolate pra Tayane, que fica sempre ali com seu filho, pedindo ajuda. Nem sempre eu atendo aos pedidos dela, e quando o faço, compro coisas mais básicas como cuscuz, arroz, macarrão...

Hoje eu decidi comprar pro pequeno, que não chega a ter 6 anos. Quando entreguei, ele pediu pra comer e, me afastando, ouvi da mãe:

- esse é tão bom que eu vou vender.

E o menino:

- mas mãe, estou com fome.

E a mãe:

- Grande coisa... eu também.

...

Meu coração já vinha apertado. Já vinha sem bater.

Foi ali que me acabei de vez.

Em casa, tirei o guacamole da geladeira,e joguei no lixo. 

Tinha apodrecido.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

caça às bruxas

O fogo que cozinha meus desejos

é o mesmo que carboniza meus sonhos


Em que tempo as mulheres não foram queimadas em praça pública?

Se brilha demais

Se ama demais

Se deseja demais

Se é grande demais 


O molde não nos cabe


A fogueira que me mata é a mesma que me aquece.

Hoje uma mulher foi queimada dentro de casa

Outro dia, foi no Cais de Santa Rita


Eu queimo junto com elas.

Elas viram números. 

São imortalizadas nas manchetes cada vez mais voláteis

O fogo deixa marcas em mim.


Nossos corpos públicos não são de ninguém

Nossos corpos públicos são de todo mundo

Nossos corpos públicos não são nossos


Eu ando pelas ruas 

Insisto em existir

 

Há uma fogueira em cada esquina

Um tribunal em cada link

Um julgamento em cada like


As bruxarias seguem fora da lei.

1095 dias

 


Comemore as suas batalhas

As derrotas 

Os êxitos

Vale comemorar as perdas

Os ganhos

As dores

As curas

Conte as cicatrizes

Cuide das feridas

Permita a desconstrução

E o renascimento

Se deixe crescer

Expandir

Permita o voo

Um dia, quando menos esperar, 

Você acorda beija-flor.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

conto de fadas

 

Era madrugada e a menina acordava num salto.

Um facho de luz vinha da sala.

Deslizava entre os lençóis, seus pés pequeninos tocavam o chão. O corredor era imenso! Ela descia os dois degraus e estava na sala de jantar.

- Não consigo dormir...

A luz acesa sobre a mesa iluminava muitos papeis. Mapas gigantes para os seus olhos tão pequenos.

Lá fora, o silêncio era cortado pelos grilos, o coaxar de uma ou outra rã... ou seria sapo...

Ela esfregava os olhos cansados.

- Já é de madrugada?

Nem bem conseguia, em pé, alcançar o tampo da mesa. Espichava-se na ponta de bailarina.

Aquelas noites de trabalho do pai eram especiais. Ele cansado do dia, esticando o expediente.

- Me conta uma história?

Segurava na sua mão, subia os dois degraus, atravessava o corredor imenso... tudo ia ficando penumbra.

Deitava a menina na cama, embrulhava com o lençol.

- Você é o meu presente.

Começava uma fábula qualquer, construída na hora. Eram histórias de agricultores, de cabrinhas professoras, de pessoas que se alfabetizavam.

A voz do pai, vencida pelo cansaço, ia ficando lenta.

A menina cutucava.

-Acabou?

Ele voltava à narrativa.

- Pai, conta uma de princesa?

Ele já não ouvia. Ressonava.

A menina se aninhava, enrolada no lençol.

Quiçá, sonhava com princesas, que libertariam agricultores... ou com príncipes professores de animais que ainda não sabiam ler. Ou com fadas madrinhas que, com suas varinhas, fariam a revolução.

Esta lembrança longínqua, de noites e noites e noites de conversa sussurrando pra não acordar a casa, desperta de um longo sono. Hoje a menina escreve suas próprias histórias. Revira memórias, dá nome aos sentimentos e embrulha tudo pra presente. 

Graças ao pai.

amor roubado

 

A saudade me paralisou

Engasgou a infância

Meus dez anos tomados de assalto


Perdi tanto:

as flores no quintal

as histórias antes de dormir


Um amor roubado


Os finais de semana programados

e a nossa tristeza quinzenal

eram traduzidos

nas paredes grossas

nas janelas pequenas

no pão torrado demais


Passei a acordar de madrugada

a  procurar seus vestígios

passei a querer esquecer 

mas era a dor que não passava


Lembro do cheiro

dos móveis comprados de segunda mão

na Rua da Conceição:

a mesa redonda de jacarandá

as cadeiras de madeira com encosto e assento de palha trançada

os lençóis estampados com babado azul

o jogo de damas

os brinquedinhos de chumbo


Lembro dos olhos dele

nos tempos mais turvos

quando me visitava na escola


Queria esquecer


Cresci silenciando

emudeci amadurecendo

a saudade que sentia

dos sanduíches de bolacha cream cracker com geleia de mocotó

de ser “embrulhada como múmia" 

da vitamina de abacate que não gostava de tomar de manhã

de visitar o peixe boi na Praça do Derby

de comer sanduíche de queijo no drive in


Trancaram meu peito

Perdi a chave

Construí um muro

Escondi a poesia


Era tudo saudade do meu pai

sábado, 10 de julho de 2021

Sábado



Depois da feira orgânica, café da manhã com mulheres queridas. Cada uma com sua história de vida. 

A pequena mesa redonda no terraço congraça nossas rotinas. 

A chuva caindo como cortina ali pertinho evoca os banhos na infância, as bicas de telha...

Em casa, experimento um momento só meu. Raro. 

A cozinha me convida pra um diálogo. 

Hoje quero leveza.

Um salmão com gergelim ao forno, ainda molhadinho... Batata doce assada. Na frigideira, cebolinha roxa, cogumelos de Paris e cenoura caramelizados. 

Não, não é sobre culinária.

É sobre prazer!

É sobre cozinhar pra si mesma e depois passar um café e comer um quadradinho de chocolate amargo, vendo aquele filme francês.

É sobre sentir devagar a crocância da cenoura, o sabor forte da cebolinha, a maciez do cogumelo e experimentar em cada garfada uma combinação diferente.

É sobre afagar o desejo de viver.

E amar a batata doce assada polvilhada com pimenta do reino. 

E sentir o salmão derretendo a cada mordida.

É sobre respeitar seu sábado. 

E prolongar a sensação de abraço.


terça-feira, 29 de junho de 2021

O primeiro vôo

 

Um beija flor pousa 

Sereno no meu ombro

Adorno desejado

Símbolo de vida

Leveza conquistada

A duras penas.


Um beija flor pousa 

Serelepe ao lado do peito

Bate suas asas

Ritmando meu coração

Beija minha orelha

Não sou flor!

Dormi mulher

Acordei colibri.

domingo, 27 de junho de 2021

vida de colibri




Tenho atentado para as mulheres que escrevem.


Aquelas que ousam, ousaram ou ousarão.


Aquelas antes de mim, de agora e do futuro.


Tenho atentado para este gesto de coragem.


A força de reescrever a história a partir dos olhos delas. Necessidade de ser porta voz de si e de suas crenças. Desejo de gerar para além do óbvio .


Nossos corpos impressos no papel, navegando pelas redes, adornando nossas mentes.


Tenho atentado para mulheres que, como eu, teimam e escrevem.


No intervalo do trabalho, no editor do word na fila do supermercado, enquanto esperam.


Esperamos muito, há muito tempo!


Uma espera muda.


bruxas ou santas


princesas ou devassas


musas desavisadas


certas ou erradas


Pelas regras alheias


Meu estado inquieta. Escrevo sob a insubordinação da minha mente. Sem pseudônimos ou codinomes. Tenho sentido a revolta ancestral, secular, universal. Estou atrasada. Levantei tarde, perdi o bonde, mas o que me vale é que encontrei o caminho. Acordei do sono lerdo que mais alienava que restaurava. Um denso desequilíbrio.


Ontem, sentei no chão da cozinha e chorei.


Olhei os móveis novos que comprei em uma loja popular e me deixei abandonar ali, cercada de aglomerado por todos os lados. No castelo de teias que teci pacientemente, baixei as armas.


Uma cozinha diz muito. Uma casa com cozinha (minha casa com cozinha) diz mais. Não quero ser provisória, mas ainda não sou definitiva. Não arrisco a permanência.


Um apartamento alugado


Um jogo de café barato


Uma cozinha de aglomerado


Tenho ensaiado ser.


O primeiro livro no forno, tatuagem inaugural marcada para terça de tarde. Vou me riscar. Escrever em mim mesma este conto. Um beija-flor de liberdade e leveza, que pousa sobre meu ombro esquerdo.  

Tenho atentado para as mulheres que escrevem, para aprender a contar a minha história.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Poesia


Vejo beleza no desfazer-se.

Desintegrar-se.

Esmaecer.

O caminho para deixar de existir

Rumo certo de tudo.

O oxigênio que nos pulmões mantém a vida

O oxigênio que ao léu

Enferruja

Oxida

Estraga.

A vida que se revigora

A vida que se finda.

Inerte

Consolo o destino

Amarro o discurso

Apaziguo o pensar


Que tudo é alfa e ômega

Que tudo é céu e inferno

Que tudo é vida e morte


Poesia, este recurso de imortalidade.






Horizonte

 Pausar.  Simples e necessário! Tempo restaurador. Arrumar as gavetas da cabeça, acariciar a alma, alentar as dores, afagar os prazeres. Fec...